Conto da Dor que Passou

*POR HENRIQUE OLIVEIRA LAURENTINO

Era noite de lua minguante.
Ele sempre preferiu os momentos onde tudo era mais escuro. Quando havia bastante luz ele não conseguia enxergar bem. Nunca descobriu o motivo disso!
Aquele cheiro fétido muito o agradava. Hábitos!!! Descobrira que aquele forte odor afastava a todos.
Diferente de sua visão, sempre conseguia perceber muito bem quaisquer fragrâncias. Algumas despertavam nele um instinto animal, quase irracional.
Tornou-se um selvagem com o passar dos tempos. Não se permitia nenhum sentimento parecido com afeto, por mínimo que fosse.
Muitas pessoas já haviam tentado estabelecer um diálogo, uma conversa, um simples contato. Contudo, ele sempre as rechaçava com suas grosserias, seus gritos, seus berros!
Mas, um dia, Carla, que sempre o olhava de longe, resolveu tentar extraí-lo daquele mundo tão triste, tão soturno. Ele não quis. E, quando notou que ela insistiria, saiu de perto dela, correndo, com o coração aos pulos.
Não permitiria que seu coração fosse quebrado novamente. “Todos são iguais! Fingem gostar de você, mas, quando menos se espera, te viram o rosto, te xingam…”, pensou naquele momento.
Algumas horas depois voltou a aquele lugar onde passara os últimos anos. A rua nunca foi uma boa mãe! Comia o que conseguia pegar. Não era fácil. Não era o único naquele lugar, naquelas condições.
Dormiu! De barriga vazia! Aquela fuga fez com que perdesse a comidinha da noite que ele pegava na lixeira do restaurante do bairro.
Amanheceu! Acordou faminto! Levantou para procurar comida, mas estava bastante tonto. E sua visão ruim não ajudava. Ninguém notou que ele estava cambaleando. Tampouco perceberam que ele desmaiara de fome.
Carla, que não dormira bem pensando nele, na sua fuga, resolveu levar alguma comida para ele e seus amigos.
Ainda ao longe, estranhou vê-lo deitado naquela hora da manhã, naquele lugar já próximo aos carros que passavam ferozes. Aumentou o passo e chegou até mesmo a correr para ver se estava tudo bem.
Tentou acordá-lo, mas ele não reagiu. Tentou fazê-lo comer. Nada. Pegou água que ela levava em sua garrafinha para trabalhar. Deu aos poucos tomando cuidado para que ele não engasgasse. Ele acordou num salto, mas estava fraco. Mal conseguia se mexer. Bebeu mais água. Conseguiu comer aos poucos. Parecia melhor! É impressionante como cães se recuperam rápido.
Mesmo com ele latindo em alguns momentos, já conseguira fazer um pouco de carinho e o levou ao veterinário. Naquele dia não foi trabalhar. Levou uma advertência por faltar, mas Carla ainda acredita que valeu a pena.
Hoje em dia, Platão está bonito, com o pelo macio e a recebe diariamente com uma bela lambida que vai do queixo até próximo aos olhos. Ela sempre faz: Eca! E retribui com um beijinho no focinho. Aí é a vez dele dar um espirrinho. Ela sorri. Coloca seu amigo mais precioso no colo e, sentindo as pancadinhas no braço ocasionadas pela cauda dele, dá um beijo no marido e pergunta, com um grande sorriso nos lábios, como foi o dia de ambos, quais dores passaram!

Scroll to top